Notícias : África Austral

Com construções modernas, Angola se transforma sem abrir mão de suas tradições

LUANDA - Dos pregões dos zungueiros ao ziguezaguear das candongas, existe um trânsito caótico. O luxo e o lixo lado a lado tornam a vida em Luanda digna de olhares curiosos. As samakakas que envolvem as cinturas das mulheres colorem a capital angolana de padrões fora dos padrões. Ritmos? São muitos. Do sensual kizomba ao trepidante kuduro, da observação romântica de Ondjaki à escrita seca de Mestre Kapela. A transgressão está em Angola. As construções quase cortam o céu na Baía de Luanda. A luz do sol, ao contrário de (quase) tudo, nasce para todos naquele pedaço da África Austral. Os musseques, ah os musseques... São a extensão do que entendemos como favelas, porém com ritmos tão desconsertantes, tão ímpares em sua extensão, tão angolanos. Esse país é assim, cheio de cadências e requebrados. Cheio de ritmos.

Muitos caminhos levam às origens em África. Colônia de Portugal até 1975, Angola é a irmã de língua mais próxima do Brasil fora da Europa. Números da embaixada brasileira em Luanda apontam que mais de dez mil brasileiros vivem por lá, a maioria na capital. Um país que, mesmo com quase 30 anos de guerra civil após sua libertação, cresce cerca de 8% ao ano e, desta forma, encontra-se, cada vez mais, de braços abertos à ordem capitalista que movimenta a economia globalizada. Mas isso tem seu preço. Luanda foi apontada por estudo da consultoria Mercer deste ano como a cidade com o mais alto custo de vida no mundo.

Basta um olhar mais atento para, do alto de qualquer prédio em Luanda, avistar novas construções que se distinguem tanto pela personalidade de uma capital com os pés no futuro como pela estética de uma arquitetura que não dispensa o passado. Em busca deste cenário, encontramos um terreno fértil para o desenvolvimento cultural e arquitetônico de Angola e o bem-estar de sua população. Reflexo de um país em mudança acelerada. A despeito do avanço ocidental sobre seus costumes, Angola guarda a sete chaves sua História, preservando, desta maneira, sua alma primitiva.

A Baía de Luanda mostra ao vistante um projeto estruturante e emblemático desse novo momento do país africano. Em uma área que sofreu grande impacto durante a guerra civil — iniciada em 1975 após a independência do país e encerrada em 2002 — houve investimento com preocupações ecológicas, como a descontaminação das águas da baía, principal atrativo turístico da capital.

OBRAS DE KAPELA E NAVIOS FANTASMAS

Nos arredores da Baía, encontramos o ateliê do Mestre Kapela, uma edificação em ruínas do edifício que abriga a União dos Artistas Angolanos. Uma discreta porta lateral dá acesso a um charmoso pátio frequentado por policiais armados. Coisas de Luanda. Mas no meio de todo esse cenário há um vasto repertório de obras de Kapela, carregadas de mensagens políticas e religiosas.

Perto dali, o Elinga Teatro é o local onde tem arte, moda e entretenimento para todas as vontades. No terraço, cheio de bares e cores, as noites de sexta e sábado são animadas por DJs. O prédio, com heranças do século XVIII, guarda, no segundo andar, peças assinadas pelo estilista Muamby Wasaky. Entre trabalhos que alinham cores a padrões, a coleção é aberta à visitação. No bairro de Matumba, o Elinga está no coração de Luanda. No seu entorno, desde o fim da guerra, um enorme estaleiro transforma a configuração física da cidade e a relação dos moradores com a mesma.

No estilo art nouveau, o Cine Teatro Nacional está cravado na baixa luandense e sedia a Associação Cultural Chá de Caxinde. Patrimônio Histórico e Cultural de Angola, o espaço foi inaugurado em 1932 para receber músicos angolanos e estrangeiros. Hoje, é palco para atividades como teatro, dança e, acredite, desfiles carnavalescos.

O Memorial António Agostinho Neto, cartão-postal de Luanda - Divulgação

Na nova Marginal de Luanda, o memorial dr. António Agostinho Neto homenageia o primeiro presidente angolano, com sarcófago, centro cultural e museu.

O sol insiste em brilhar no céu rosado de Luanda. Os dias são sempre de calor, banhos de mar, refrescantes mergulhos, uma ou outra emoção. Este é sonho dos 20 milhões de angolanos e de turistas que buscam o mar.

Na praia de Cabuledo, é possível surfar ou apenas contemplar as belezas de seu entorno. A vista do Rio Kwanza é privilégio da Barra do Kwanza, perto da Ilha de Mussulo, onde dia e noite parecem uma coisa só pelas festas ao estilo sunset. Uma das sete maravilhas naturais de Angola, a pequena ilha contrasta com o restante de Luanda, habitada pela rotina das grandes cidades. Também conhecida como Ilha de Massula, é um dos principais destinos para as férias, seja pela calmaria das praias de areia dourada ou pelos bares badalados, que servem peixes e frutos do mar, além de drinques com frutas tropicais, ao som de DJs. A dez minutos de barco de Luanda, a ilhota oferece ainda atividades ao ar livre, especialmente esportes marítimos, como mergulho e windsurfe.

Ao anoitecer de volta à cidade, uma opção diante do Atlântico são as exibições de filmes na cobertura dos prédios. Destacado no livro “Os transparentes”, do angolano Ondjaki (vencedor do Prêmio José Saramago em 2013), o projeto “Cinema no telhado” é gratuito e apresenta produções de diferentes países, inclusive do Brasil.

Nos fins de semana, a Ilha do Cabo, também chamada de Ilha de Luanda, ganha tons de festas intermináveis. Uma sequência de espaços destinados a shows e gastronomia ocupa a faixa que divide o asfalto da areia. Os mais conhecidos são o Chill Out e o Lokal, onde o semba divide a pista com a música eletrônica, sem hora para acabar. Com vista para o mar, a maioria das casas oferece pratos da cozinha mediterrânea em generosas porções.

Imagine um prato à base de atum, vinho, uísque, leite, azeite e cubos de caldo de carne? Foi desta forma que ingressei num roteiro gourmet pela capital angolana. Em um bom restaurante no complexo gastronômico chamado Angola Food & Drink, na Ilha do Cabo, a sopa de coco é servida com abóbora, o calulu com angu e os cogumelos selvagens com camarão de Namibe. É típico, mas que tal um combinado de sushis? Ou um risoto de pimentas e lagosta? Tem de tudo um pouco. A mousse de morango é uma das preferidas para a sobremesa.

O cardápio é bem diversificado e uma refeição fica em torno de 3 mil kwanzas angolanos, ou cerca de US$ 30. Akara é uma mistura de feijões com especiarias tradicionais da Nigéria, o que torna o prato excepcional. Acompanha flocos de aveia ou custarda (doce africano feitocom amido de milho e aromatizado com baunilha). O chef João Carlos da Silva é de São Tomé e Príncipe e aposta na feijoada à moda da terra e no doce de papaia verde com maracujá. Já Carlos Graça levou de Moçambique o chatini (combinado de tomate e especiarias) com peixe seco, o matapa (refogado) de camarão e amendoim e o matoritori (doce de coco). O anfitrião é o angolano Rui Sá que recebe convidados com iguarias que vão além da imaginação. Entre as estrelas do cardápio, estão os salteados de cogumelos selvagens com camarão do Namibe.

A 20 km ao norte de Luanda, um trecho de areia e mar de água morna concentra um verdadeiro baú de memórias. O Cemitério de Navios guarda histórias de fantasmas capazes de atrair os mais curiosos à Praia de Santiago. É um dos maiores do mundo a acumular centenas de embarcações de grande porte — muito em razão dos anos de conflito — em estado de oxidação. Uma das mais antigas, o navio Karl Marx, foi um petroleiro de 70 metros.

A dica é aproveitar o passeio para saborear um peixe assado à beira da estrada, servido pelas “mamas” com feijão a óleo de palma (dendê), salada de alface, molho de cebola, bananas-pão (da terra) e batata-doce.

O PARAÍSO AZUL DE BENGUELA

A tranquila Baía Azul, em Benguela, litoral angolano - Divulgação

Famosa por suas belezas naturais, Benguela é um verdadeiro mosaico de relevo, vegetação e água cristalina. No litoral–centro-sul de Angola, a 420km de Luanda, encontramos esta cidade conhecida em toda a África por suas praias. E neste quesito há opções para todos os gostos. As mais isoladas, as mais frequentadas, as mais apreciadas pelos amantes de mergulho, enfim as mais belas.

Como diz a canção que leva o nome do local, “Benguela é a terra onde o mar tem calma”. E que calma. A mais famosa, Praia Morena, tem areia branca que se inicia na Baixa de Benguela e se estende por cerca de mil metros. É a praia preferida dos jovens da cidade e região, onde a badalação corre noite afora.

Na Baía Azul se escondem as joias raras deste pedaço do paraíso da África Austral. Como o próprio nome sugere, a água é tão azul que faz desta área ser merecedora — guardadas as devidas proporções — do título de Caribe africano e atrai não só latinos, como também europeus.

Os restaurantes à beira-mar servem carnes, peixes e outras iguarias típicas.

Benguela limita-se a norte com o charmoso município de Lobito, onde uma alameda de restaurantes e bares é um convite a um brinde e, claro, à boa mesa, repleta de mariscos e frutos do mar. Não deixa de ir ao Zulu e pedir o peixe grelhado.

No caminho de volta, a 40 km de Luanda, a dica é parar no Miradouro da Lua e admirar o conjunto de belas falésias que margeiam o Oceano Atlântico. A vista é do alto e pode render boas fotos. O que, sem dúvida, dispensa a utilização de filtros.

SERVIÇO

ONDE FICAR:

Hotel de Convenções de Talatona: Diária média a R$ 1.213. Luanda Sul, Talatona. hoteltalatona.com

Epic Sana: Diárias a R$ 2.054. Rua da Missão, no Centro. luanda.epic.sanahotels.com/pt

Hotel Fiesta: A 5 km da Baía de Luanda, na região do Maianga, com acesso aos principais pontos da cidade. Também fica próximo ao aeroporto. Diárias a R$ 484. Rua 2, nº 16, no Bairro Cassenda. hotelfiestaangola.com

DOCUMENTAÇÃO

Visto e vacina: Brasileiros precisam de visto de entrada para viajar para Angola (consuladoangolarj.org) e de certificado de vacinação contra febre amarela (portal.anvisa.gov.br).

oglobo.globo.com | 12/8/14 8:30 PM
Na Angola, um encontro com as guerreiras de Kwanza-Norte, região da rainha Njinga
Jovem em tribo na Vila do Dondo, a 180 quilômetros de Luanda, em Angola - Divulgação

LUANDA - Este ano, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, exibiu - pela primeira vez por aqui - o longa “Njinga, Rainha de Angola” (2013), do português Sérgio Graciano. A produção é angolana, e traz um pouco sobre a guerreira que lutou por décadas contra o colonialismo lusitano no século XVII.

A história deste símbolo da resistência começa em 1617, ano em que seu pai, o rei Kilwanji, morreu. Após presenciar, posteriormente, o assassinato do filho e a humilhação que o irmão sofreu diante dos colonizadores portugueses, Njinga resolveu lutar pela libertação do povo mbundu. Depois de quatro décadas de conflito, com o lema “quem ficar, luta até vencer”, ela conseguiu selar a paz com os portugueses, que a reconhecem como a rainha de Matamba e Ndongo. A partir daí o futuro das mulheres em Angola passou a ser contado de forma diferente.

Uma boa pedida, portanto, é trocar um fim de semana à beira-mar em Luanda por uma viagem ao território onde viveu Njinga. Na Província de Kwanza-Norte, na Vila do Dondo, a 180 km da capital, as tribos que não sucumbiram à dominação colonial europeia continuam a defender a região. Com a morte de tantos homens na guerra, que se estendeu até 2002, elas, as mulheres do Kwanza-Norte, se transformaram em verdadeiras guerreiras para obter o sustento da casa e não deixar a cultura daquele povo virar capítulo de livros de história.

Sob a égide da opressão sexual ditada pelo poder do “macho” africano por toda a Angola, as mulheres são as chefes de família, mas a grande maioria delas, por força do destino, está no Kwanza-Norte, onde Njinga fez-se respeitada pelos colonizadores. Por lá, elas plantam, colhem, vendem. Artesanato, música, literatura, teatro e dança. Tudo é rico nesta terra cortada pelo Rio Kwanza, o maior e mais abundante do país.

Pensar e ver as guerreiras em ação não seria tão estranho se não estivéssemos tratando de um continente onde as minorias - o que também inclui os gays - vivem sob custódia de leis sectaristas. Sem poder exercer o voto, por exemplo, as mulheres de Angola, mesmo as que ocupam cargos no Governo e nas grandes empresas, não têm, sequer, o direito à vaidade. Elas não podem fazer as unhas e depilar qualquer parte do corpo, o que, para nós, já é o bastante para achar tudo muito bizarro. Mas, vale ressaltar, Angola está a mil anos-luz à frente da maioria das nações africanas.

Longe das riquezas mineirais e petrolíferas do presente, as tribos de guerreiras do Dondo mantêm hábitos milenares do passado, como não cobrir os seios e falar as línguas nacionais (umbundum, kikongo e kumbundum), o que faz desta terra uma importante seara para ideais de um futuro libertário. Um processo de luta imposto, a ferro e fogo, por mulheres como a rainha Njinga, reconhecida pela Unesco uma das 25 figuras femininas mais importantes da história da África.

NA FEIRA DO DONDO, ARTESANATO E MESA FARTA

Em busca dos mitos que cercam a história da lendária Rainha Njinga Mbandi, chega-se à tradicional Feira do Dondo, onde elas, as guerreiras africanas do século XXI, ainda estão no comando.

Entre peças de decoração e artigos domésticos do artesanato local, encontramos uma mesa farta de sabores da África Austral. O peixe Cacuso é cozido à beira do rio e vem servido inteiro, acompanhado de feijão de óleo de palma (dendê), batata-doce, banana pão (da terra), farinha museque (mandioca) e molho de cebola.

É o carro-chefe da culinária e sucesso entre turistas do mundo todo. Para refrescar o paladar - levemente apimentado - a pedida é a cerveja Eka, à base de cereais da região.

Após a feira, dar um giro pela Vila do Dondo é uma volta ao passado imperdível. Do alto da Colina do Cambambe, as ruínas da Igreja N. S. do Rosário estão dentro de uma fortaleza de pedras do século XVII.

Parcialmente destruído pelas guerrilhas, a construção guarda relíquias da memória angolana, como santuários, altares e sacristia, tudo de origem portuguesa. À frente das ruínas, o olhar se perde diante do verde que quase encobre as curvas do Rio Kwanza, que parece não ter fim.

A província do Kwanza-Norte é um lugar sem kuduro ou qualquer outra prática cultural dos grandes centros angolanos. Por isso, inclua o roteiro em sua viagem, afinal são muitas as razões para encher de cor uma Angola esfumaçada por décadas de mortes e destruição. Vida longa à Rainha Njinga e às mulheres guerreiras do Dondo!

oglobo.globo.com | 12/3/14 8:13 PM
Em Angola, um encontro com as guerreiras de Kwanza-Norte, região da rainha Njinga
Jovem em tribo na Vila do Dondo, a 180 quilômetros de Luanda, em Angola - Divulgação

LUANDA - Este ano, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, exibiu - pela primeira vez por aqui - o longa “Njinga, Rainha de Angola” (2013), do português Sérgio Graciano. A produção é angolana, e traz um pouco sobre a guerreira que lutou por décadas contra o colonialismo lusitano no século XVII.

A história deste símbolo da resistência começa em 1617, ano em que seu pai, o rei Kilwanji, morreu. Após presenciar, posteriormente, o assassinato do filho e a humilhação que o irmão sofreu diante dos colonizadores portugueses, Njinga resolveu lutar pela libertação do povo mbundu. Depois de quatro décadas de conflito, com o lema “quem ficar, luta até vencer”, ela conseguiu selar a paz com os portugueses, que a reconhecem como a rainha de Matamba e Ndongo. A partir daí o futuro das mulheres em Angola passou a ser contado de forma diferente.

Uma boa pedida, portanto, é trocar um fim de semana à beira-mar em Luanda por uma viagem ao território onde viveu Njinga. Na Província de Kwanza-Norte, na Vila do Dondo, a 180 km da capital, as tribos que não sucumbiram à dominação colonial europeia continuam a defender a região. Com a morte de tantos homens na guerra, que se estendeu até 2002, elas, as mulheres do Kwanza-Norte, se transformaram em verdadeiras guerreiras para obter o sustento da casa e não deixar a cultura daquele povo virar capítulo de livros de história.

Sob a égide da opressão sexual ditada pelo poder do “macho” africano por toda a Angola, as mulheres são as chefes de família, mas a grande maioria delas, por força do destino, está no Kwanza-Norte, onde Njinga fez-se respeitada pelos colonizadores. Por lá, elas plantam, colhem, vendem. Artesanato, música, literatura, teatro e dança. Tudo é rico nesta terra cortada pelo Rio Kwanza, o maior e mais abundante do país.

Pensar e ver as guerreiras em ação não seria tão estranho se não estivéssemos tratando de um continente onde as minorias - o que também inclui os gays - vivem sob custódia de leis sectaristas. Sem poder exercer o voto, por exemplo, as mulheres de Angola, mesmo as que ocupam cargos no Governo e nas grandes empresas, não têm, sequer, o direito à vaidade. Elas não podem fazer as unhas e depilar qualquer parte do corpo, o que, para nós, já é o bastante para achar tudo muito bizarro. Mas, vale ressaltar, Angola está a mil anos-luz à frente da maioria das nações africanas.

Longe das riquezas mineirais e petrolíferas do presente, as tribos de guerreiras do Dondo mantêm hábitos milenares do passado, como não cobrir os seios e falar as línguas nacionais (umbundum, kikongo e kumbundum), o que faz desta terra uma importante seara para ideais de um futuro libertário. Um processo de luta imposto, a ferro e fogo, por mulheres como a rainha Njinga, reconhecida pela Unesco uma das 25 figuras femininas mais importantes da história da África.

NA FEIRA DO DONDO, ARTESANATO E MESA FARTA

Em busca dos mitos que cercam a história da lendária Rainha Njinga Mbandi, chega-se à tradicional Feira do Dondo, onde elas, as guerreiras africanas do século XXI, ainda estão no comando.

Entre peças de decoração e artigos domésticos do artesanato local, encontramos uma mesa farta de sabores da África Austral. O peixe Cacuso é cozido à beira do rio e vem servido inteiro, acompanhado de feijão de óleo de palma (dendê), batata-doce, banana pão (da terra), farinha museque (mandioca) e molho de cebola.

É o carro-chefe da culinária e sucesso entre turistas do mundo todo. Para refrescar o paladar - levemente apimentado - a pedida é a cerveja Eka, à base de cereais da região.

Após a feira, dar um giro pela Vila do Dondo é uma volta ao passado imperdível. Do alto da Colina do Cambambe, as ruínas da Igreja N. S. do Rosário estão dentro de uma fortaleza de pedras do século XVII.

Parcialmente destruído pelas guerrilhas, a construção guarda relíquias da memória angolana, como santuários, altares e sacristia, tudo de origem portuguesa. À frente das ruínas, o olhar se perde diante do verde que quase encobre as curvas do Rio Kwanza, que parece não ter fim.

A província do Kwanza-Norte é um lugar sem kuduro ou qualquer outra prática cultural dos grandes centros angolanos. Por isso, inclua o roteiro em sua viagem, afinal são muitas as razões para encher de cor uma Angola esfumaçada por décadas de mortes e destruição. Vida longa à Rainha Njinga e às mulheres guerreiras do Dondo!

oglobo.globo.com | 12/3/14 8:13 PM
Viúva de Mandela diz que África precisa ‘responder melhor’ ao ebola

SÃO PAULO. Viúva do ex-presidente Nelson Mandela, que pôs fim à política de Apartheid na África do Sul, a ativista moçambicana Graça Machel afirmou nesta segunda-feira que os países da África, Europa e os Estados Unidos precisam dar uma resposta à epidemia do vírus ebola à altura do problema, que já vitimou mais de 5,5 mil africanos. Questionada pelo GLOBO se faltava apoio dos países desenvolvidos ao combate à epidemia na África, Graça respondeu:

— Eu não diria que está faltando apoio. Eu diria que o apoio tem de responder à magnitude do problema, tem de responder na mesma medida. Mas é preciso reconhecer que eles (os países desenvolvidos) estão na África, nas zonas de maior incidência de ebola. E também é preciso dizer que os próprios africanos têm de responder melhor ao problema.

Graça Machel participa em São Paulo da FlinkSampa, uma festa literária que tem como foco a cultura negra e, apesar de à noite receber uma homenagem em seu nome e de Mandela, não quis falar com a imprensa sobre a história de seu marido, cuja morte completa um ano no dia 5 de dezembro.

— Não vou falar de Mandela, desculpe— disse Graça.

A ativista, que tem uma longa história de defesa dos direitos humanos e, notadamente, das mulheres e crianças, evitou durante todo o ano falar sobre Mandela. Ela rompeu o luto em junho passado e voltou à vida pública. Em setembro, discursou na cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. A jornalistas brasileiros, reafirmou sua posição:

— Precisamos saber quão rápido e com quais medidas pretendemos travar o nosso avanço para esse precipício. É preciso que os dirigentes políticos assumam suas responsabilidades, é preciso legislar de maneira muito clara o que é admissível ou não. As grandes empresas precisam ser responsabilizadas para ter programas inequívocos de como vão contribuir neste esforço e mesmo os países que não são emissores (de poluentes) têm de realizar a sua parte.

Graça Machel criticou o racismo no Brasil e disse que “não se pode permitir que a sociedade brasileira pretenda endossar, pretenda esquecer essa realidade”:

— A discriminação racial, ainda que não seja falada, ainda que seja de uma maneira velada, é uma realidade cotidiana que, por um absurdo, é uma realidade que afeta 52% da população deste país_ disse a ex-primeira-dama da África do Sul:_ Tenho conscientemente trazido à superfície o sofrimento que a humilhação da discriminação racial causa na sensibilidade do indivíduo, na sua afirmação como cidadão.

Ela defendeu o modelo sul-africano de democracia que, segundo ela, tem uma representação que se aproxima mais da sociedade. Sem defender sistema de cotas na política, Graça fez uma crítica indireta ao Brasil ao dizer que não poderia comparar onde haveria mais racismo, se no Brasil ou na África do Sul:

— Eu não gostaria de dizer quem é mais racista ou menos racista. Eu gostaria de dizer que, qualquer país que não reconhece que nos órgãos mais altos de decisão tem de ter uma representação de todos os grupos que compõem sua população, é um país que tem de questionar seriamente os valores democráticos que professa— disse ela, que completou:— É preciso que este país e outros se questionem sobre o que quer dizer uma representação democrática que reflita a composição de sua própria sociedade. A resposta não deve ser dada por mim, mas pelos brasileiros.

Questionada se a morte de Mandela teria colocado alguns risco no equilíbrio racial alcançado na África do Sul, Graça afirmou, ainda sem citar o ex-presidente:

—A África do Sul conseguiu prevenir, evitar que houvesse uma confrontação violenta baseada na raça. A África do Sul instituiu mecanismos claros, até em forma de lei, de participação de todos os órgãos em todos os órgãos de decisão. Há pessoas que questionam o processo de eleição proporcional, dizem que não responsabiliza o suficiente, mas eu julgo que não é por acaso que nós, hoje, no Parlamento sul-africano, temos uma representação significativa dos negros, dos indianos, dos pardos, das mulheres, dos jovens, das pessoas que vivem com deficiência. Temos um parlamento muito diverso que corresponde, de alguma maneira, não vou dizer que seja perfeito, mas que está muito mais próximo de representar a diversidade que a África do Sul é.

Sem falar sobre os problemas políticos e militares enfrentados hoje por Moçambique, Graça, que participou da luta pela independência do país e, em 1976, casou-se com o presidente Samora Machel, defendeu o modelo de democracia moçambicano. Para ela, é importante que os países desenvolvam políticas “claras” de inclusão e redução da desigualdade racial e social.

— Não é por acaso que os países liderados por movimentos de libertação na África Austral, que são Angola, Moçambique, Namíbia e a própria África do Sul, optaram por isso (pelo modelo de representação dos estratos sociais e das minorias). Porque nós, quando lutamos, sabíamos muito bem o que é essa coisa de ser discriminado. E dissemos que não vamos discriminar ninguém no momento em que chegarmos ao poder. É a nossa opção, é a nossa experiência, mas, como digo, cada país tem que dizer quais são as formas de ter uma representação que seja verdadeiramente democrática e expressão da composição social que tem— disse Graça.

Considerada uma das cem personalidades mais influentes do mundo pela revista Time, Graça Machel disse ainda que o Brasil “não tem problemas de recursos” para a educação, mas que “tem problemas de políticas” educacionais. Sobre índíces sociais e desenvolvimento humano, a ativista concluiu:

— O Brasil tem muito a aprender e a ensinar também. Tem sido um membro muito ativo na defesa dos interesses dos países em desenvolvimento. Mas, ao mesmo tempo, tem lições para tirar internamente para melhorar alguns índices, como de mortalidade materna e infantil.

oglobo.globo.com | 11/24/14 6:33 PM
Presidente moçambicano defende liderança de Mugabe na Comunidade da África Austral
O Presidente moçambicano defendeu hoje a escolha do seu homólogo do Zimbabué, Robert Mugabe, para liderar a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), comentando que, como numa família, seja marido ou mulher, "alguém manda em casa". www.rtp.pt | 8/18/14 9:49 PM
Exportações para Angola estão "em vias de extinção"
A má notícia é que "as exportações portuguesas para Angola estão em vias de extinção", especialmente quanto entrar em funcionamento a Zona de Comércio Livre da África Austral, em 2017. A boa notícia, anunciou... 






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