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Após uma década, Brasil recebe competições de apneia com chancela internacional

Mãe de três filhos e fisioterapeuta de formação, a curitibana Carol Schrapper é uma expoente continental da apneia, aos 41 anos. No último dia 3 de setembro, ela bateu o recorde sul-americano de lastro variável ao alcançar 95m de profundidade na ilha de Bonaire, nas Antilhas Holandesas, em exatos 2m22s. Porém, no primeiro Torneio Carioca de Apneia Estática, que acontece neste domingo, às 10h, ela usará seu fôlego apenas para garantir a segurança dos competidores: fiscalizará se eles permanecem conscientes num esporte em que o risco de morte é constante até para profissionais.

O torneio acontece na piscina do Botafogo, no Mourisco, com entrada franca — as inscrições para o evento, organizado pela Escola de Mergulho Coral de Fogo, se encerraram ontem. Carol também ajudou na organização do evento, que tem gosto de celebração para ela: o Brasil vai voltar a receber um campeonato de apneia — ou mergulho livre — homologado por uma entidade internacional depois de asfixia que durou dez anos.

— A apneia é regulamentada pela Aida (Associação Internacional para o Desenvolvimento da Apneia). Desde 2006, não há competições internacionais com o aval dela no Brasil. Acontecem alguns campeonatos fechados, mas sem chancela mundial. No domingo, vamos quebrar esse jejum de 10 anos fazendo o primeiro Torneio Carioca de Apneia Estática. No ano que vem, a ideia é incluir mais modalidades no evento para fomentar ainda mais o esporte — disse Carol.

Enquanto a prova não chega, a freediver brasileira aproveita a piscina para treinar: calça a nadadeira comprida, ajeita a máscara de mergulho e faz breves exercícios de respiração antes de atravessar os 50m da piscina alvinegra sem respirar — ida e volta. Depois dos 100m percorridos com a mesma naturalidade de um peixe nadando no mar, ela emerge com um sorriso e faz um sinal de O.K. com as mãos. Se estivesse treinando forte, ela precisaria de um observador presente e atento. Ela previne:

— Todo mergulho deve ser feito em dupla. É preciso que alguém te acompanhe enquanto você testa seus limites debaixo da água.

IMPRUDÊNCIA MATA

Carol se considera uma atleta conservadora: em 16 anos de mergulho, “apagou" apenas quatro vezes dentro do mar. Em todas, foi socorrida a tempo e reanimada na superfície. Além de sentir na pele o risco, viu grandes nomes sucumbirem à tentação de mergulhar sós em estilos profundos.

— Já vi a russa Natalia Molchanova, que foi um dos maiores nomes do esporte, apagar três vezes na mesma competição. Acho complicada essa situação. Se a pessoa apagou debaixo da água é porque o corpo já superou o seu limite — analisa Carol.

Natalia, que tinha o apelido de “máquina do mergulho livre”, morreu em agosto do ano passado, aos 53 anos. Dona de três recordes mundiais, a russa estava dando um curso de apneia para iniciantes na ilha de Formentera, sul da Espanha, e resolveu fazer um treino de 30m. Acostumada a romper a barreira dos 100m, ela mergulhou e nunca mais emergiu. Seu corpo jamais foi encontrado.

Mortes por não cumprimento de regras básicas não são novidade entre os grandes nomes da apneia. Primeiro homem a romper a barreira dos 200m de profundidade apenas com o ar dos pulmões, o belga Patrick Musimu foi achado morto na piscina de casa pela mulher e filha, em 2011, enquanto treinava sozinho apneia estática. Tinha 41 anos. Apneia, assista sem respirar

Mas o que leva uma pessoa a se dedicar a superar os limites dos pulmões debaixo d’água?

Para Carol, tudo começou com um despretensioso batizado de mergulho, em Fernando de Noronha, atividade pela qual se apaixonou. Meses depois, participou por acaso de um torneio de apneia estática e conseguiu ficar três minutos debaixo d’água — uma excelente marca para iniciantes.

Nesta modalidade, o recorde mundial é da russa Natalia, com 9min02s, seguida pela brasileira Karol Meyer, com 7min18s. O masculino é do francês Stephane Mifsud, pentacampeão mundial de 45 anos, com impressionantes 11min35s sem tomar fôlego.

Para viver do esporte, Carol dá cursos de apneia e de mergulho. Maya Gabeira a procurou logo depois do acidente de 2013 em Nazaré, Portugal, e até hoje Carol ajuda a surfista de ondas grandes a superar o afogamento quase fatal. Também ministrou aulas para nomes respeitados da prancha, como Carlos Burle e Pedro Scooby. Tem patrocinadores, mas sabe se virar sem eles.

— Às vésperas de tentar bater o recorde de 95m, o meu patrocinador principal pulou fora. Só fui por causa de amizades. Por exemplo, expliquei minha situação para o dono do hotel, que é meu amigo, e ele não cobrou a minha estadia. Também tive pouco treino lá, mas consegui bater com facilidade o recorde. Para do ano que vem, eu quero passar dos 100m — disse Carol.

APÓS 100M, NÃO DIRIJA

A curitibana afirma que a apneia lhe trouxe mais conhecimento sobre o próprio corpo. Na água, a concentração é tamanha que ela chega a “escutar e controlar as batidas do coração”. Para evitar a pressão da água, que comprime os órgãos à medida que a profundidade cresce, é preciso acumular o ar nos seios da face para abrir espaço na caixa torácica.

Se passar dos 100m, ela pode sofrer uma sensação comum à distância: a narcose, embriaguez causada pelo excesso de nitrogênio, comum no mergulho com cilindro. Os reflexos diminuem, como no excesso de álcool.

— Uma apneísta americana já disse que ficou embriagada a ponto de não saber onde era a superfície e onde era o fundo depois de ter passado dos 160m — lembra Carol.

oglobo.globo.com | 11/26/16 5:30 AM

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